2017-10-23

O Egoísmo Altruísta, por Adolfo Mesquita Nunes


Gostei desta reflexão do Adolfo Mesquita Nunes no Delito de Opinião:

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2017-10-20

Cobertura de Lisboa pelo Metropolitano


Tentando fugir aos frequentes engarrafamentos dentro da cidade de Lisboa tenho tentado usar o metropolitano com maior frequência. Quando está bom tempo tenho considerado razoável usar o Metro quando existe estação a menos de 1km a pé do local-objectivo. Actualmente é fácil quantificar essa distância no Google Maps.

Para fazer uma ideia da cobertura de Lisboa pelo Metropolitano pensei em colocar círculos transparentes com um raio de 1 km e centro sobre cada estação neste mapa disponível no site do metropolitano


e o resultado foi este


Depois achei que embora fosse claro que a Beira-rio entre 1km depois de StªApolónia e o Parque das Nações,  Alcântara, Belém, Restelo, Ajuda, Lapa e parte do Campo de Ourique estivessem fora dos círculos, além de outras zonas periféricas pensei usar este mapa de Lisboa onde se vêem ruas e parques mas onde faltam algumas estações de metro


e colocar os círculos de 1 km de raio como já fizera com o mapa do metropolitano


Se existissem eléctricos rápidos (imunes a engarrafamentos de outros veículos) à beira-rio a ausência de Metro seria menos grave.


2017-10-18

Incêndios em Portugal e noutros sítios


Em Portugal precisamos de fazer muita coisa para evitar repetição das catástrofes provocadas pelos incêndios deste ano. Já temos os relatórios e desastres de grandes proporções que possibilitam adoptar leis e procedimentos que antes seriam considerados impossíveis.

Mas mais uma vez nos convencemos que somos o único país onde existem estes problemas. Por exemplo na Califórnia a situação tem sido como descrita neste artigo breve do Economist: Why the North American forest is on fire.

Vê-se agora a sabedoria do António Costa. Se tivesse demitido logo a ministra agora precisaria também de demitir o sucessor. Assim evitou uma mudança apressada e a nova equipa só será testada na próxima temporada de fogos.

Mesmo assim eu aconselharia alguma calma na nomeação do sucessor dado que ainda falta o Verão de S.Martinho.

2017-10-17

Bicicletas de Lisboa


A EMEL (Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa, E.M. S.A.) além de tratar dos parquímetros em Lisboa, iniciou um programa de instalação de bicicletas urbanas partilhadas em que me inscrevi.

Começaram pelo Parque das Nações onde instalaram várias "docas" com bicicletas para serem usadas por aderentes. No site gira-bicicletasdeLisboa explicam os detalhes. É preciso descarregar uma aplicação para o telemóvel, aderir ao programa, pagar (com Multibanco ou Paypal) uma taxa anual, mensal ou diária, carregar um saldo e começar a usar. Em cada "doca" existem bicicletas clássicas e eléctricas, selecciona-se uma usando a aplicação, tira-se do sítio, usa-se e volta-se a colocar na mesma ou noutra doca. Actualmente só existem docas no Parque das Nações.

As bicicletas são aparelhos notoriamente difíceis de armazenar em apartamentos de prédios pois estão cheios de protuberâncias que exigem imenso espaço, difícil de encontrar sobretudo em andares habitados há muito tempo e que se foram enchendo ao longo dos anos seguindo a lei do horror que a Natureza tem pelo vazio.

Além disso a cidade de Lisboa está cheia de montes e vales pelo que era necessário uma bicicleta com apoio eléctrico para tornar viável a sua utilização por ciclistas nem profissionais nem atletas amadores. Subi ontem a rua Cidade de Pádua com uma destas bicicletas eléctricas e fiquei muito satisfeito com a moderação do esforço necessário para vencer esta rua tão íngreme.

Estas bicicletas resolvem portanto os dois problemas que referi: não ocupam espaço em casa e não requerem esforço desagradável para vencer as colinas de Lisboa. E o selim é confortável.

Deixo uma imagem da bicicleta devolvida à doca após a minha primeira utilização.





2017-10-14

Federica Mogherini sobre acordo com Irão


Na sequência de intervenção de Donald Trump afirmando que iria terminar o acordo multilateral com o Irão, Federica Mogherini fez uma comunicação afirmando que o acordo com o Irão era multilateral, e nenhum dos signatários tinha poder para terminar o acordo que consiste num anexo duma resolução tomada de forma unânime pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Aqui está essa comunicação, em inglês, sem legendas.




Não me lembro de ter assistido a declarações formais deste teor de altos responsáveis da União Europeia  sobre intervenções do presidente dos E.U.A. É possível ou mesmo provável que se tornem mais frequentes.

2017-10-10

Pavão


Este é o milésimo post deste blogue que já existe desde Março/2008. Pareceu-me adequado fazer um post sobre pavões, pavoneando assim a minha longevidade como bloguista.

Na terceira idade regressa-se à juventude e vejo-me assim a fazer uma redacção sobre o pavão, se bem que na sua elaboração tenha tomado contacto com avanços científicos na explicação da iridescência que dão um ar mais adulto a este texto.

De vez em quando vejo pavões na Quinta Pedagógica nos Olivais. Além do espectáculo sempre deslumbrante da exibição da cauda dos pavões, aprecio o seu comportamento tranquilo, o que me leva a fotografá-los com alguma frequência. Neste post selecciono algumas das muitas fotos que tenho tirado.

Nestas duas primeiras imagens mostro a comunidade que existia em Novembro/2014, 2 machos e 5 fêmeas. O grupo parecia coexistir de forma despreocupada



ocasionalmente com segregação por sexos, 2 machos por um lado e 5 fêmeas por outro



com zoom para as fêmeas



Uma das características que aprecio nos pavões é o silêncio e a discrição com que que se movem. De repente notamos que estão vários pavões à nossa volta sem que tenhamos sido avisados por ruídos vários da sua chegada.

Na foto seguinte, de Maio/2015 esta fêmea aproximou-se bastante da cadeira da esplanada e comeu um pedacinho de chocolate de um gelado que caíra no chão.



Aproximou-se lentamente, mantendo (difícil não antropomorfizar...) um ar altivo, com aqueles penachinhos na cabeça a fazer lembrar um diadema.



As cores das pavoas são muito mais discretas do que as dos pavões mas mesmo assim o pescoço tem uma cor verde muito bonita. Na consulta das entrada da wikipédia sobre pavões, na versão em português e na versão mais completa em inglês constatei que muitas das penas dos pavões são iridescentes, à semelhança do que acontece com muitas outras aves, com borboletas, conchas marinhas, alguns insectos e outros materiais, como por exemplo as opalas.

A iridescência é uma propriedade de objectos cuja côr varia conforme o ângulo de observação dos mesmos. A côr é obtida através de estruturas nanométricas (dimensão entre 1 e 100 nanómetros) designando-se por “coloração estrutural”.

Os físicos Newton e Robert Hooke já tinham notado que as cores iridescentes dos pavões eram criadas por coloração estrutural e não por pigmentos.

São as interferências ópticas (reflexões de Bragg) causadas pelas nanoestruturas periódicas existentes nas bárbulas das penas

Por André Cattaruzzi - Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, 
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=40852338


que causam as cores iridescentes das penas dos pavões. Depois do Lorde Rayleigh se ter interessado pelos cristais fotónicos em 1887 o assunto foi retomado em 1997 por Eli Yablonovitch tendo desde essa altura sido objecto de grande actividade de investigação, dadas as importantes aplicações industriais que se prevêem no domínio da óptica.

No artigo da wikipédia sobre iridescência encontrei referência a este artigo intitulado “Coloration strategies in peacock feathers” fazendo parte de uns “Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America”, da autoria de 8 autores chineses trabalhando na Universidade Fudan em Xangai. O facto de terem usado o microscópio electrónico no estudo das estruturas existentes nas penas do pavão dá uma explicação para este assunto ainda não estar completamente estudado.

Felizmente estes chineses ainda publicam artigos em inglês, um dia destes é possível que as revistas de física mais importantes sejam publicadas em mandarim. Seria bom que por essa altura pelo menos o pinyin fosse preferido em relação aos ideogramas.



Ainda no mesmo ano, em 29/Nov/2015 16:16 tirei esta foto de 4 pavoas sobre um telhado da Quinta Pedagógica.


Já tinha visto pavões a voar para ramos altos de árvores mas fiquei surpreendido com esta posição sobre telhado.


Fui verificar à Wikipédia onde diz que os pavões são aves da floresta que nidificam e se alimentam no chão mas repousam empoleirados nas árvores.


Ou então em sítios altos de difícil acesso como optaram estas pavoas. Fui ver a que horas foi o sol posto na data da foto, foi às 17:16, provavelmente as pavoas já tinham comido que chegasse e foram preparar-se para passar a noite. Não me lembro de ver galinhas ou galos em sítios tão altos.

Na internet vi uns filmes curiosos em que mostram perus selvagens, que pernoitaram em ramos de árvores, voando para um sítio sem árvores ao nascer do sol. É possível que existam filmes semelhantes para pavões.



A seguir mostro 3 imagens de Fevereiro/2016 de pavões a alimentar-se no prado verde da quinta do Contador-Mor, adjacente à Quinta Pedagógica




Achei graça a este Pavão empoleirado em cima dum “Jogo do Galo”, em Março/2016, confirmando uma atitude Zen que deve ser uma das características que aprecio nos pavões



e termino naturalmente com um pavão exibindo a sua cauda maravilhosa



Será fácil encontrar fotos de leques de pavão melhores do que esta. Normalmente o fundo da fotografia perturba a cena e a iluminação desta cauda é fraca. Por exemplo aqui tem uma foto interessante e outras aqui.





2017-10-06

Catalunha


“As fronteiras são as cicatrizes da História”, frase que na internet é atribuída a Robert Schuman, um dos fundadores da União Europeia.

Será portanto difícil fazer com que as cicatrizes desapareçam de um dia para o outro mas só em casos muito excepcionais fará sentido abrir uma nova ferida.

No caso catalão poderá haver um círculo vicioso difícil de quebrar. A tendência centralizadora de Madrid é ao mesmo tempo causa e consequência das tendências separatistas de algumas regiões de  Espanha, designadamente da Catalunha.

Se houve tempo em que face às telecomunicações da época se constatava que os impérios não conseguiam coordenar esforços de regiões muito distantes, na situação actual em que lentamente se constrói uma União Europeia não se compreende porque se pretende separar de Espanha uma região que nunca foi independente e que goza actualmente de grande autonomia.

O pseudo-referendo ilegal realizado do passado dia 1 de Outubro de 2017 nunca poderá constituir uma base sólida para uma declaração de independência, em primeiro lugar porque foi considerado inconstitucional pelo Tribunal Constitucional de Espanha, colocando os residentes da Catalunha perante o dilema de terem de participar numa actividade ilegal para manifestar a sua oposição à separação. Em segundo lugar porque o Estatuto da Catalunha necessita de dois terços do parlamento catalão para ser alterado e essa maioria não foi conseguida. Em terceiro lugar porque para uma decisão tão grave seria aconselhável para evitar futuros grandes conflitos que uma grande maioria participasse no referendo e que houvesse também uma maioria qualificada a votar pelo sim.

Dadas as circunstâncias, a realização do referendo constituiu apenas uma manobra para declarar unilateralmente a independência pois era mais do que claro que face à actual Constituição iria ser declarado inconstitucional, iria ter alguma afluência do “sim” e quase nenhuma afluência do “não”.

O envio de forças policiais para impedir a realização do referendo ilegal faz parte das atibuições do executivo de cumprir e fazer cumprir a Constituição. Tenho contudo grandes dúvidas sobre a utilidade de enviar forças policiais para tentar impedir uma ilegalidade deste tipo. Sob um ponto de vista político, as imagens inevitáveis de alguma violência sobre cidadãos que “apenas pretendiam votar”, eu acho que pretendiam sobretudo fazer uma futura separação entre “nós” e “eles”, deverão ter fortalecido a causa separatista. Atrevo-me contudo a afirmar que quando se enviam milhares de  polícias para uma missão deste tipo, é inevitável que ocorra alguma violência e não há notícia de ferimentos graves. Enric Millo, o representante do governo espanhol na Catalunha, pediu desculpa pelos excessos na intervenção policial, acusando contudo o governo catalão de ter realizado um voto ilegal.

Parece inevitável que se façam negociações entre um futuro governo da Catalunha e o governo de Espanha. Na actual situação essas negociações parecem quase impossíveis.

A imagem mostrando a península ibérica, com Portugal, as regiões autónomas de Espanha em verde claro, a Catalunha a verde, alguns países vizinhos e o meridiano de Greenwich foram tirados da Wikipédia.
 




2017-10-05

Economia com Todos



Andei a ler este livro feito por um conjunto de economistas que escrevem no blogue "Ladrões de Bicicletas", quase todos os membros desse blogue contribuíram com um artigo para o livro, sendo cada um deles mais extenso do que os posts que habitualmente continuam a aparecer no blogue.

Não concordando com tudo o que li, achei mérito em muitas das opiniões bastante diferentes das que normalmente se vêem nos meios de comunicação social com maior audiência, embora os autores apareçam de vez em quando nesses meios.

A maior parte dos autores estão ligados a universidades pelo que também me surpreende que os economistas saiam do ensino com um pensamento que parece único.

Transcrevo um texto  do início do livro, retirado do primeiro post do blogue referido:

«
Os dilemas trágicos que os indivíduos têm de enfrentar em resultado da falta de recursos e de poder tornam-se visíveis num belo filme italiano a que este blogue roubou o nome. Não somos cineastas, mas economistas. Acreditamos que a economia, como o cinema, pode ser um «desporto de combate». Temos partidos e ideologias diferentes e divergentes, mas convergimos no que hoje importa. Pleno-emprego, serviços públicos, redistribuição da riqueza e do rendimento, controlo democrático da economia fazem parte do caminho que queremos percorrer. Recusamos e combatemos as «evidências» e mitos que alimentam o actual consenso neoliberal. Acreditamos que o mercado sem fim é a ideologia transponível do nosso tempo. Mas uma coisa reconhecemos aos nossos adversários e a F. Hayek, o seu grande ideólogo: «nada é inevitável na existência social e só o pensamento faz que as coisas sejam o que são». Este blogue é portanto um espaço de opinião de esquerda, socialista e que pretende desafiar o actual domínio da direita na luta das ideias. Pedalemos então!João, Nuno, Pedro e Zé
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2017-10-04

O tiroteio em Las Vegas


É sabido que a National Rifle Association defende que se toda a gente andasse armada não existiriam os massacres que ocorrem de vez em quando nos Estados Unidos da América, quer nas escolas quer quando os atiradores usam um palco para atirar contra a plateia.

Este argumento tem alguma lógica embora tenha como efeito colateral que considero indesejável obrigar toda a gente a andar com armas, objectos pesados incómodos para transportar no quotidiano e cuja omnipresença aumentaria o número de acidentes bem como o número de discussões que escalariam numa troca de tiros.

O recente incidente em Las Vegas em que um homem alvejou a partir da janela no 32º andar de um hotel, uma multidão que assistia a um concerto ao ar livre, em que morreram mais de 50 pessoas e centenas ficaram feridas, mostrou que nalguns tipos de incidentes de nada adiantaria que a multidão estivesse armada dado que estavam a ser alvejados a partir de uma distância considerável com armas de repetição automática de cadência elevada, na ordem dos 10 tiros por segundo. Nesta situação, antes do atirador ser sequer localizado, centenas de projécteis já teriam atingido a multidão.

Mostro uma infografia que vi na BBC sobre este tiroteio


Bem sei que a NRA continuará a aconselhar que todos os americanos andem sempre armados.

Mesmo assim tenho dificuldade em perceber porque é que num país onde a liberdade de andar com armas é tão importante se obriga nos voos domésticos os cidadãos americanos a viajar desarmados.

Não seria mais consistente que também nos aviões pudesse toda a gente andar com a sua espingarda de repetição? Ou pelo menos com um revólver?


2017-10-01

Financiar os estudos superiores será rentável?


O post "Benefícios do Ensino Superior em Portugal"do João André no Delito de Opinião chega a uma conclusão interessante:

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O país não valoriza os estudantes do superior como deveria mas beneficia imenso deles. Apesar das ineficiências, haverá certamente poucas áreas do estado onde haja tantas vantagens entre o serviço prestado e o benefício retirado. Ou, noutras palavras, o Ensino compensa. E muito.
»

Uma confirmação empírica desta conclusão é o interesse manifestado pelas instituições financeiras americanas em financiar os estudos  universitários dos alunos. Desta forma privatizam os rendimentos que o Estado retiraria dos salários dos licenciados cujo rendimento colectável é diminuído pela devolução (juros+amortização do empréstimo) que o licenciado tem que retirar ao seu salário bruto. E diminuem a mobilidade social.


2017-09-28

Pavão voando


Numa das minhas frequentes visitas ao sítio da BBC encontrei esta imagem lindíssima dum pavão a voar


Dizia lá que a imagem fora obtida pelo fotógrafo Sanjeevi Raja, de Coimbatore, do estado de Tamil Nadu no extremo sul da União Indiana, que localizei num site da National Geographic.

Normalmente os pavões chamam a atenção pela sua beleza e pelo espectáculo deslumbrante da abertura da sua cauda, mas embora não estejam a mostrar a cauda constantemente tenho visto muitas exibições ao longo do tempo.

Nessas alturas costumo notar nas penas cor-de-cobre mas não era capaz de dizer em que parte do corpo do pavão estariam essas penas. Quando vi esta foto googlei (peacock flying) e fui dar a este YouTube


que mostra perfeitamente os detalhes do voo do pavão em câmara lenta. Tenho visto pavões a voar mas os movimentos são tão rápidos que só dá para ver que ao contrário das galinhas conseguem voar distâncias apreciáveis.

Este video é espectacular!


2017-09-25

Colocados por género no IST no ano lectivo 2017-18



Vi este gráfico num post do IST no LinkedIn.

Quando passei pelo IST (Instituto Superior Técnico) no período de 1966-1971, no último ano do curso de Engenharia Electrotécnica existiam 4 alunas num universo de cerca de 120. Na Química, curso com maior percentagem de mulheres, a repartição era cerca de 50-50%.

As comparações com a situação actual não são exactas porque naturalmente os curriculos são diferentes e foram introduzidos alguns novos, como por exemplo a engenharia do Ambiente ou a Biológica em que a maioria das pessoas são mulheres.

Constato contudo que após 50 anos, a Engenharia de Telecomunicações e Informática, com os seus 11% de alunas, não aumentou muito os 3% de há 50 anos. Embora as mulheres tenham demonstrado individualmente nesta área uma competência equivalente à dos homens, parece existir uma preferência estatística significativa por outras áreas de actividade.


2017-09-15

O estuário do Tejo como espelho


Vou tirando umas fotos de vez em quando, a maior parte das vezes com o telemóvel, muitas vezes pensando que as vou mostrar neste blogue, mas nem sempre concretizo rapidamente a intenção e as fotos vão ficando nas pastas do PC à espera de serem mostradas.

Desta vez pensei em publicar esta foto de Setembro de 2014, num dia ao fim da tarde,



em que a superfície da água estava como um espelho. Lisboa é uma cidade ventosa e estas situações são menos frequentes e não sendo raras suscitam contudo maior propensão para tirar mais uma foto. Constatei que no meu blogue são frequentes estes espelhos à beira-rio, facilmente acessíveis fazendo busca de “beira-rio”.


Ao ver a foto apeteceu-me dar uma volta à beira-rio mas quando saí de casa apercebi-me que o vento presente não seria compatível com água espelhada. Ao pé do rio confirmei a minha espectativa de ausência de espelho:



Na margem ao pé da água viam-se as aves habituais, desta vez guinchos e alfaiates.


No mesmo percurso, sobre o lodo, vira na véspera duas alforrecas,


que era o nome pelo qual conhecia estes animais quando eles davam à praia no Algarve, tendencialmente em Setembro. Mais tarde conheci o termo “medusa”, na Wikipédia usam o termo “Medusozoa”. Nunca reparara na existência de uma forma em cruz.




2017-09-09

Água de Côco


Recentemente encontrei num supermercado em Portugal um côco objecto de uma adaptação que tornava facilmente acessível a água de côco, tão apreciada nos países em que eles crescem.



Este é um dos efeitos da globalização, é possível agora aceder a alguns produtos no sítio onde vivemos sem precisar de fazer uma viagem de muitas horas. Claro que depois quando viajamos para lugares distantes esses produtos já deixaram de ser um dos motivos para fazer a viagem, mas entretanto temos acesso permanente na nossa terra a uma muito maior diversidade.

Neste caso apreciei muito o conjunto de adaptações que transforma um côco com a sua água num recipiente tão fácil de abrir como uma lata de um refrigerante, côco colocado sobre cilindro de cartão para lhe dar estabilidade e incluindo dentro desse cilindro uma palhinha telescópica que uma vez estendida já não encolhe, mostrando uma enorme atenção ao detalhe.

O côco é produzido na Tailândia e transformado em Espanha (Genuine Coconut), tendo a transformação sido objecto de um prémio  (Fruit Logistica Innovation Award 2016).

Aqui tem um filme explicando como se abre o côco e como depois se pode aceder também à polpa do mesmo.


2017-09-06

O obscurantismo em Portugal


Noutro dia alguém me enviou num e-mail este texto execrável escrito por uma aristocrata portuguesa em 1927, portanto há 90 anos:




De vez em quando deploro e lamento esta vergonha nacional do analfabetismo em Portugal em pleno século XX e costumo sempre referir que essa é a pesada herança que nos deixou Salazar e seus entusiásticos apoiantes e não o ouro entesourado no meio da profunda miséria da sociedade portuguesa durante a maior parte desse século.

É evidente que a existência de tantos analfabetos num país dum continente onde todos os outros países tinham reduzido a taxa de analfabetismo a valores residuais deveria coexistir com opiniões obscurantistas como a que acabo de transcrever.

Porém, nos tempos que correm é muito fácil pôr a circular textos forjados na Internet pelo que “googlei” o nome da alegada autora do texto tendo chegado a uma entrada da Wikipédia que curiosamente apenas existe em língua inglesa.

Constatei portanto que a pessoa existira e que embora tenha dedicado tempo a criar literatura para crianças e a escrever livros sobre como governar uma casa e como educar os filhos, deveria considerar os seus como feios, fracos e pouco saudáveis em comparação com os alegadamente melhores representantes da alma portuguesa, os nessa altura 75% de analfabetos.

Através dessa busca cheguei também a um artigo muito interessante de Maria Filomena Mónica, publicado em 1977 na revista “Análise Social” intitulado “«Deve-se ensinar o povo a ler?»: a questão do analfabetismo (1926-39)” e disponível no link do título.

Achei o artigo muito esclarecedor sobre as opiniões em confronto, não tive disposição (ou arte) para fazer um resumo do mesmo mas não resisti a transcrever partes do texto de 33 páginas, para estimular uma leitura completa:

«
1. A QUESTÃO DO ANALFABETISMO
O debate que se realizou na Assembleia Nacional em 1938 constitui uma das mais importantes fontes da ideologia salazarista no que respeita à educação popular. A Assembleia reuniu para discutir a reforma da instrução primária do ministro Carneiro Pacheco, Mas a discussão deu lugar a uma desenvolvida e reveladora exposição da nova ideologia oficial, que negava os mais caros princípios pedagógicos do liberalismo e do republicanismo e, consequentemente, o ideal de um sistema de escolaridade obrigatória e gratuita.
 

a) AS «CAUSAS» DO ANALFABETISMO
O facto de, em 1930, em cada 100 portugueses 70 não saberem ler chocava algumas pessoas e, simultaneamente, tranquilizava outras. Para os sectores mais progressivos da intelligentsia portuguesa, que sempre se haviam envergonhado com uma taxa tão alta, o analfabetismo era o principal obstáculo ao desenvolvimento do País. Para os salazaristas, porém, era uma virtude.
...
Os salazaristas ressuscitaram a crença tradicional (para cuja divulgação durante o século xix contribuíra, entre outros, Ramalho Ortigão) de que o povo português «não sentia necessidade de aprender». Mas os republicanos adoptaram a explicação, não menos convencional, de que o analfabetismo se devia aos padres, à «reles canalha da batina»
.
»

Um pouco depois refere o texto de Virgínia de Castro Almeida que mostrei acima, comentando-o desta forma:
«
 Em 1807, o presidente da English Royal Society usara exactamente os mesmos argumentos para combater a proposta de lei relativa à introdução de escolas elementares em Inglaterra. Mas isso fora em 1807.
»

e sobre a igualdade prossegue:
«
Alguns sociólogos contemporâneos mostraram como as sociedades industriais avançadas utilizam o sistema escolar para legitimar as desigualdades sociais, fundando-se na ideologia meritocrática segundo a qual as posições privilegiadas são acessíveis a todos os indivíduos de igual talento.
As sociedades democráticas, em especial os Estados Unidos da América, sentiram a necessidade de justificar as profundas desigualdades económicas que nelas se mantêm, apesar dos proclamados ideais de liberdade, fraternidade e igualdade. Uma das formas possíveis de justificação residia em explicá-las por diferenças individuais inatas de capacidade intelectual, como reveladas pela selecção escolar. Sendo a transferência de status por via hereditária condenada pela ortodoxia do poder, passou a considerar-se a diferenciação social como produto de aptidões individuais.
A visão salazarista da sociedade como uma estrutura hierárquica imutável conduziu a uma concepção diferente do papel da escola: esta não se destinava a servir de agência de distribuição profissional ou de detecção do mérito intelectual, mas sobretudo de aparelho de doutrinação. Para o salazarismo não havia, aliás, qualquer razão para justificar as desigualdades económicas, que eram inevitáveis e instituídas por Deus, E convinha até, pelo contrário, rebater as falsas ideias do passado que apresentavam a escola como a «grande niveladora». Salazar afirmava mesmo categoricamente que a educação, só por si, pouco nivelaria, ou seja, que numa sociedade naturalmente hierarquizada, a educação pouco poderia contribuir para uma maior igualdade

»
prosseguindo
«...
O ataque mais articulado contra a escola única surge em 1928 pela pena de Marcello Caetano. Vamos analisá-lo em certo pormenor,
...
Deste modo, M. Caetano, reconhecia, e aceitava, o papel que os factores sociais desempenhavam no desenvolvimento intelectual, mas para negar a  possibilidade de mobilidade ascendente. Nas suas próprias palavras: «Uma criança inteligente, filha de um operário hábil e honesto, pode, na profissão de seu pai, vir a ser um trabalhador exímio, progressivo e apreciado,  pode chegar a fazer parte do escol da sua profissão, e assim deve ser.» Cada classe possuía a sua hierarquia interna, nos limites da qual o mérito contava. Num sentido mais lato, porém, o  status era herdado.
Nestas condições, a escola única acarretaria desastrosas consequências para os indivíduos que através dela se promovessem. Filho de operário que «subisse» por intermédio da «escada educacional» pagava um alto preço: «
Seleccionado pelo professor primário para estudar ciências para as quais o seu espírito não tinha a mesma preparação hereditária que tinha para o ofício, não passaria nunca de um medíocre intelectual, quando muito um homem sábio, mas incapaz de singrar na vida nova que lhe [haviam indicado] sem o ouvir.»
»
 Pensaram em punir os analfabetos para acabar com o analfabetismo

«... No entanto, só uma pena foi instituída por lei: em 1929, um decreto proibiu os analfabetos de emigrar. Mas nunca se cumpriu.
...
»

não me parecendo que isso fosse uma punição mas antes uma manifestação de apreço: a nação não podia prescindir desse recurso tão apreciado que constituíam os seus analfabetos.

Referindo depois a reforma de 1937
«
 A reforma de Carneiro Pacheco, de 1937, coroou todas as tentativas anteriores de cristianizar a escola e realizou as aspirações mais reaccionárias quanto à redução do currículo escolar e à supremacia da religião no ensino. Nas palavras do Diário da Manhã, a escola podia finalmente devotar-se a «formar o espírito e o carácter da criança», livre das «preocupações enciclopedistas», que tanto a haviam prejudicado. Como um inspector escreveu por essa altura, parafraseando a doutrina oficial, «por muito que se glorifiquem as letras do alfabeto, convençamo-nos de que a luz que delas irradia só perdurará se atingiras consciências e puder fecundar as almas. O nosso trabalho há-de consistir principalmente em prover as crianças de sólidas virtudes cristãs, entre as quais o amor ao trabalho, a disciplina da ordem e a alegria de viver.» A trilogia final sintetiza o programa do Estado Novo para a escola primária.
»
e a redução da escolaridade obrigatória

«
Dois corpos de legislação merecem ser aqui mencionados, porque estabeleceram as principais transformações que o Estado Novo introduziu no sistema escolar primário. Com a justificação de que era necessário reduzir as despesas públicas e impedir a «acumulação» de um número excessivo de alunos nos liceus, reduziu-se a escolaridade obrigatória, primeiro para quatro119 e depois para três anos120. Esta redução foi acompanhada da limitação das matérias ensinadas, de acordo com a doutrina de que «saber ler, escrever e contar é suficiente para a maior parte dos Portugueses.» E, como não fazia sentido transmitir muitos conhecimentos a alunos que apenas viriam a desempenhar trabalhos servis, tudo o que ultrapassava as aptidões mais elementares passou para um sistema «complementar», que, encerrado em 1932, não voltou a abrir. O Decreto-Lei n,° 27 279 definia claramente a nova ortodoxia: «O ensino primário elementar trairia a sua missão se continuasse a sobrepor um estéril enciclopedismo racionalista, fatal para a saúde moral e física da criança, ao ideal prático e cristão de ensinar bem a ler, escrever e contar e a exercer as virtudes morais e um vivo amor a Portugal.»
»

A espécie humana conseguiu, através do estabelecimento de regras, procedimentos e valores de diversa natureza, obter progressos muitíssimo mais rápidos do que os que conseguem ser introduzidos no ADN da espécie, através da selecção natural de mutações favoráveis, que precisam de milhões de anos. Mas estes progressos, se bem que rápidos, não alteram a natureza humana pelo que precisam de um esforço de manutenção permanente para evitar retrocessos e/ou evoluções em sentidos desfavoráveis.

A conquista da alfabetização generalizada da população foi um enorme progresso que tem que ser defendido.



2017-08-29

Sobreiro em relvado algarvio


É algum atrevimento da minha parte classificar esta árvore isolada no meio dum relvado dum aldeamento algarvio como um sobreiro, apenas porque me pareceu que o tronco estava revestido de cortiça


é um contraponto às fotos em que aparece um sobreiro solitário no meio duma planície imensa do Alentejo, aqui é no meio dum jardim



e gostei das folhas iluminadas:




2017-08-28

Palmeiras em Alvor


Tenho tido limitações quantitativas no acesso à internet que estão agora menos rígidas.

Mostro a seguir umas palmeiras que vi no caminho para a praia dos 3 Irmãos, em Alvor, concelho de Portimão



2017-08-12

Crepúsculos na Praia da Rocha


Tirei esta foto (um diapositivo) com uma máquina analógica Olympus OM-1, com objectiva de 50mm, a minha primeira e única máquina até aparecerem as digitais, em Setembro de 1974 e já a mostrara num post deste blogue em Dezembro de 2008.



No passado 10/Ago passei pelo mesmo local e não resisti a tirar outra foto, desta vez com o telemóvel que tem uma grande (ou mesmo enorme) angular



Naquele Setembro de 1974 o ar estava mais límpido e haveria talvez menos luminosidade ou então o telemóvel compensou a falta de luz. O horizonte estava mais vermelho, e o mar também estava espelhado, como é frequente no Verão ao fim da tarde quando acalmam as brisas locais.

Não consegui usar o mesmo enquadramento e as experiências que fiz para alterar a cor não foram bem sucedidas, encontrei cores muito "forçadas", a de 1974 tem uma certa "patine", quase a preto e branco.

A vista da praia mudou muito menos do que a vista das construções que felizmente não aparecem em nenhuma das imagens. A água entrava mais pela praia adentro ao pé do miradouro (e provavelmente em toda a praia) e não existia o pontão de pedras a ligar este ao "gémeo" (designação dada aos dois pequenos rochedos de forma cónica em frente do miradouro) mais próximo.

Gosto muito dos fins de tarde.

2017-08-07

Calor de Palmeiras


Estas palmeiras, que julgo serem uma espécie importada das ilhas Canárias e que são muito comuns em Portugal, foram há uns anos vítimas dum parasita que matou uma data delas.

Uma pessoa associa estas plantas a climas quentes embora aguentem bem os nossos invernos.

Gostei de ver este exemplar sobrevivente iluminado pelo Sol ao fim da tarde em Portimão, com a lua quase cheia sobre o céu ainda azul.




Não estava um calor de ananases mas estaria um de palmeiras.


2017-08-06

Tom Gauld: A Realidade é uma ilusão mas...


Vi esta imagem


no blogue do embaixador, lembrou-me "A condição humana" do Magritte.

Depois fui à procura dela no Google Images com uma parte da frase (Reality is an illusion entirely within the human mind, but it's the only place you can get a decent cup of coffee.) e encontrei-a rapidamente. Foi feita por Tom Gauld, cartoonista escocês, de que seleccionei esta representação da respectiva biblioteca


e esta descrição de duas nações em guerra
 


2017-08-05

Calor de ananases


Era quase noite escura saímos de casa para tentar apanhar um bocadinho de fresco no molhe da Praia da Rocha.

Havia uma brisa leve que por vezes trazia umas sugestões de frescura, o horizonte estava fotogénico e só tinha o telemóvel à mão


 Não é habitual ver pessoas a passear na praia a refrescar os pés à beira-mar nesta hora do dia, o céu foi clareado pelo telemóvel



 a mesma imagem fazendo um zoom




2017-08-02

As Sultanas


Na minha primeira viagem à Índia em 1990 tomei conhecimento da existência dos livros de viagem “Lonely Planet”, criados por um casal de autralianos que começou por viajar por sítios baratos no Extremo Oriente e que com o sucesso obtido expandiu o número de países cobertos pela colecção, cujas publicações devem hoje cobrir o mundo todo.

Além dos conselhos de viagem propriamente ditos os livros incluem sínteses históricas de enorme qualidade, com um estilo bem disposto mas descrevendo o essencial, que tenho lido sempre com muito interesse em cada livro que tenho comprado.

Foi talvez aí que tomei conhecimento das dificuldades para encontrar sucessor nos impérios Otomano, da Pérsia e da Índia, situação claramente devida à existência de um harém com numerosas concubinas e numerosos herdeiros potenciais da coroa, dos quais o soberano escolheria um.

Os primogénitos corriam muitas vezes o risco de serem preteridos por filhos de concubinas mais jovens e mesmo que não estivessem interessados em suceder ao pai viam-se na obrigação de se defender dos irmãos ( e vice-versa) que os viam como uma ameaça potencial que precisava de ser eliminada.

Quando existe um harém, a situação de esposa favorita é quase sempre transitória, a própria existência do harém constitui uma pressão social para que o governante não se fixe numa única esposa. Daí a importância da frase “mãe há só uma”, a mãe do sultão, lugar almejado por boa parte das mulheres do harém.

Percebe-se assim melhor as vantagens para os cortesãos menos ambiciosos do modelo de sucessão ocidental em que o direito do primogénito ao trono era muito poucas vezes posto em causa, os cortesãos não tinham que tomar partido por um dos pretendentes, evitando assim o risco enorme de escolherem o lado perdedor, perdendo o lugar na corte, a riqueza e provavelmente a vida. No Ocidente bastava um primogénito, desejavelmente alguns irmãos legítimos para o caso de doenças mortais e os filhos bastardos fora do concurso para a herança do trono.

Lembrei-me disto tudo julgo que na sequência dos comentários recentes sobre os filhos do Cristiano Ronaldo criados em barrigas de aluguer e nalgumas analogias e diferenças entre o famoso jogador e os sultões do império Otomano.

Deixo a seguir uma imagem de uma das numerosas salas do harém no palácio de Topkapi em Istambul




2017-07-25

Un Ciel de Magritte


Na última viagem à Bélgica fui visitar o museu do Magritte e constatei que os céus azuis dos quadros dele costumam ter umas nuvenzinhas brancas como se constata neste conjunto de quadros



Depois vi que certamente se inspirava no céu azul de Bruxelas, que em vez dum azul liso como em países mais para o Sul costuma apresentar umas nuvenzinhas, como se pode constatar na foto que tirei ao céu no Museu do Magritte em Bruxelas, com o Atomium ao fundo a certificar o lugar da 2ª imagem



No Mont des Arts deparei-me entretanto com este caminho de árvores que me pareceu digno, com alguns retoques, dum quadro surrealista, com o caminho que não leva a lugar nenhum, a parede do lado esquerdo num azul muito claro fazendo lembrar o céu e um céu, perdão um tecto, verdejante e denso



2017-07-17

O esquerdista acidental

 Este meu texto foi publicado inicialmente em 14/07/2017 neste post do blog "Delito de Opinião"

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O esquerdista acidental

Na vida das sociedades existem duas tendências antagónicas, para a mudança e para preservar o que se alcançou.

Poderíamos dizer que a primeira é progressista e a segunda conservadora. Mas tratam-se de classificações apressadas porque por vezes as mudanças são feitas para regressar a situações anteriores enquanto o progresso se faz encontrando soluções inovadoras.

Existe outro par de tendências antagónicas que corresponde melhor à distinção entre esquerda e direita, enquanto a esquerda sublinha a igualdade essencial de todos os seres humanos a direita sublinha as diferenças entre seres humanos, que também são essenciais à humanidade, somos todos iguais mas também todos diferentes.

A origem da classificação esquerda/direita vem da revolução francesa em que os deputados do lado esquerdo da assembleia davam prioridade à igualdade enquanto os do lado direito davam prioridade às diferenças vincadas entre as classes sociais que existiam no anterior regime.

Como a distribuição da riqueza era então muito desigual em relação à contribuição de cada um, a esquerda foi conotada em toda a parte com o desejo de mudança enquanto a direita com a manutenção do statu quo.

Mas quando após muitos anos as mudanças introduzidas pela esquerda começaram a ser consideradas excessivas nalguns países, observou-se uma maior apetência pela mudança pela parte da direita enquanto a esquerda se batia pela manutenção das regras entretanto estabelecidas.

Talvez tenha sido a revolução industrial ocorrida na Europa que criou condições para uma partilha da riqueza muito mais equitativa do que a que existira na Idade Média. Em Portugal a revolução industrial foi muito tímida, devido à nossa situação periférica, à catástrofe pombalina da educação (de repente 20000 alunos do “secundário” ficaram sem professores devido à expulsão dos Jesuítas), às lutas entre absolutistas e liberais no século XIX. Na primeira metade do século XX tão pouco houve grandes progressos em Portugal, tendo chegado a 1950, metade do século XX, com uma pobreza confrangedora e uma taxa de analfabetismo de 42% (fonte: António Candeias et al. (2007): Alfabetização e Escola em Portugal nos Séculos XIX e XX. Os Censos e as Estatísticas, mostrada na tabela a seguir), um valor único e inacreditável na Europa a que alegadamente pertencíamos!

Ano    Analfabetismo Variação
1900            73%              -----
1911            69%              -4%
1920            65%              -4%
1930            60%              -5%
1940            52%              -8%
1950            42%            -10%
1960            33%              -9%
1970            26%              -7%
1981            21%              -5%
1991            11%            -10%
2001              9%              -2%

Devido a esta herança de falta de formação que temos tido dificuldade em encontrar profissionais competentes quer na prestação de serviços quer na manutenção de máquinas, sendo preferida a solução de deitar fora e comprar novo, muitas vezes representando um desperdício de capital.

Mesmo agora sofremos deste handicap, quer na manutenção quer nas despesas de funcionamento corrente, como por exemplo no sistema de videovigilância dos paióis de Tancos que estava há dois anos avariado antes do roubo de há dias, no SIRESP que tem má performance nas situações de crise em que teria maior utilidade, na falta de verba para manutenção e funcionamento dos aparelhos de ar condicionado das escolas reabilitadas no programa da Parque Escolar, etc.

Claro que o esforço na formação deu os seus frutos, a qualidade e consistência de muitos serviços melhoraram imenso nestes últimos 40 anos, como por exemplo no serviço nacional de saúde, no ensino, no fornecimento da electricidade, da água, do gás, dos telefones do acesso à internet, no saneamento, no tratamento do lixo e em tantos outros sectores que costumam ser noticiados apenas quando ocorrem grandes problemas.

Mas partindo tão atrasado o país continua na cauda da Europa em muitos indicadores e uma pessoa com tendências conservadoras como eu, que aprecia ver as coisas a funcionar consistentemente bem, não se pode dar por satisfeita apenas com o que se alcançou, vendo-se forçada a apoiar mudanças para uma distribuição mais equitativa da riqueza, que ainda está mais desigual do que a média da União Europeia, sendo a razão principal do nosso atraso.

Ou numa frase: para ser conservador era preciso que o país estivesse muito melhor.

É o que me torna num esquerdista acidental.

jj.amarante
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